quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Passos

Estava bem quente para uma noite fria. Os passos nas poças que se formaram nas pedras quebradas da calçada faziam com que sua figura se estilhaçasse a cada pisada. Olhava para os lados rezando sua prece pagã e cética, esperando que um botequim qualquer estivesse aberto, afim de livrar-lhe da idéia. No máximo uma portinha entreaberta onde se via as pernas de pessoas que se agarravam. Não ousaria entrar lá, não era para sua laia. Considerava-se gente educada, mesmo com aquela idéia.

Chegou em uma avenida cheia de luzes, e, assustado, conferiu se nada aparecia pela jaqueta. Não. Continuou andando, mais preocupado a cada passo. Em cada movimento de sua perna vinha um tremor precedendo seu pisar. E cada tremor era uma idéia diferente. Pensava em perdão, ofensa, vingança e em quando foi a última vez que pensou nisso. A coragem ia diminuindo, deixando aumentar uma tensão que não sabia de onde vinha. Não fosse tão covarde tremeria menos.

Ia chegando, mas preferia não chegar e assumir a falta de peito para bater de frente com seu maior medo. Aproximava-se e estava certo de que dessa vez não poderia falhar. Havia planejado, pensado. Com a inteligência que adquirira no decorrer de sua vida, elaborou um plano infalível. Simples, mas infalível. Nada demais, até comum. Mas infalível.

Nunca havia machucado ninguém, sempre andara cauteloso, mas agora sua intenção era ferir, por mais que seus sentimentos por vezes quisessem negar isso. Abrir uma ferida tão profunda e incurável que pudesse matar. Era quando conseguia um pouco mais de coragem. A raiva tem dessas coisas.

Chegou ao destino, e estavam lá, como imaginava. Os três exatamente como da outra vez. Desgraçados. A ponte era o seu fim, a lâmpada que falhava era o seu momento, e o toldo amarelo, seu fracasso. Não fosse o último, já teria conseguido. Olhou para os lados certificando a solidão certeira, esperando o momento que a lâmpada se apagasse. Apagou. Tirou a arma da jaqueta e apontou para a cabeça, olhando a silhueta do toldo logo abaixo, com o pouco de luz que vinha das janelas das casas. Olhava. E olhava seus pés trêmulos. Ficou assim até a luz se acender novamente. Desesperado, guardou a arma. Sua garganta palpitava forte e sua mão suava. Respirava fundo, tomava ar para o próximo apagão. Sempre olhando o toldo. Apagou de novo. Fez o mesmo ritual, olhando o toldo fixamente. Ficou assim até a luz se acender de novo. Baixou a arma. Guardou-a no mesmo lugar, deu dois passos para trás, virou-se e foi embora. Mais uma vez derrotado pelo toldo amarelo.

4 Comentários:

Blogger Unknown disse...

Edu... dentre todos que vc já escreveu, acredito que este foi o mais complexo e envolvente, cada dia me surpreendo mais.

XD

6 de fevereiro de 2008 às 09:26  
Blogger Thiago Almeida disse...

Fala Du!

Saudades de você!

Gostei muito do texto, muito bem escrito e muito visual.

Abração, meu querido!

=D

6 de fevereiro de 2008 às 09:48  
Anonymous Anônimo disse...

Sempre os toldos amarelos... tsc, tsc¬¬

Gostei =)

Beijo, Du!

6 de fevereiro de 2008 às 13:34  
Blogger Erika Sodré disse...

*LER EDUARDO É FACINANTE...

7 de fevereiro de 2008 às 17:55  

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